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quinta-feira, agosto 06, 2015

Compressas

Tu bem que te contorces, fechas os olhos, procuras encolher e juras que, se te cortares, não sangrarás, sairá ar ao invés. Mas não. És como os outros, és mais um.
Não és especial.
E mesmo sabendo que sangrarás dirás que não, que não foi fundo, talvez tenha ido mais fundo do que esperavas mas que te safarás bem com meia dúzia de compressas - que se assim foi com os outros também assim será contigo - e em dois ou três dias estarás de volta aos combates, serás mais um na linha que todos aguentam e onde todos esperam voltar a casa. Ela não cairá contigo.
Mas não és especial, já o sabias. E então desesperas.
Quando dás por ti não pensaste.
Quando dás por ti és ridículo.
E quando dás por ti és humano.

Somos todos. Menos o Mendes.
Esse era da Figueira da Foz.
O Mendes era parvo.


José Augusto Moreira, 71 anos,
Reformado

domingo, novembro 17, 2013

Nova Lisboa

Quando voltarmos, voltamos todos!
Eu era o chefe. Não era, mas era o que falava mais alto, e disse-lhes "rapazes: se é para voltar, voltamos e voltamos todos!". Nunca mais parámos. Mato serrado, rios sem travessias... foi de tudo!
Eu era o chefe. Em boa verdade não era, mas quem visse dizia que sim. Mas ninguém nos viu, não!, e a dada altura, era de noite, lembro-me como se fosse hoje, parámos. Era uma estrada, passavam carros e tivemos de esperar que passassem para não nos verem. E depois seguimos, olha, zás! Que nem lebres!
Eu era o chefe. Ia na frente, a abrir caminho. O Zé vinha atrás e o Semedo logo a seguir. Isto a caminho de Nova Lisboa, onde a coisa ainda não estava muito má. Daí seguíamos de avioneta com o Rodrigo, do Lobito, e estávamos safos! Foi pena o Semedo ter vendido o Toyota, mas a pé a coisa também se fez. Teve de ser. Acho que nunca tinha corrido tanto na vida...
A dada altura atravessámos um rio, fundo... aquilo era água que nunca mais acabava. Mas sabíamos nadar. Eu nadava melhor. Parecia o chefe do grupo, era o que nadava melhor. O Zé nadava mal. Apanhámos o comboio em Silva Porto, o resto foi um tiro. De manhã estávamos lá e fomos ter com o Rodrigo ao aeródromo.
Ele já estava lá desde o dia anterior, quando o encontrámos estava bêbado que nem um cacho! O Semedo é que teve de trazer a avioneta! Eu pilotava melhor que o Semedo, mas foi ele que a trouxe.
Esse Rodrigo... o pai dele era piloto da TAP, teve sempre um bocado a mania. Menino rico, já se sabe. Pensava que era o chefe ou sei-lá-o-quê, mas não era! O chefe era eu.
Quer dizer, na verdade não era, mas era mais que o Rodrigo.




José Augusto Moreira, 71 anos
Reformado

terça-feira, agosto 31, 2010

A Vespa

Haviam por lá muitas Vespas. Sabes como é, país quente, sol... também chuvia é certo, chegava a chover muito e muitas vezes era com cada carga de água que criava autenticos rios! Mas até a chuva era quente. Aquilo era calor que nunca mais acabava. E então os jovens usavam muito as Vespas e os Mini Moke para se deslocarem e aquilo era giro, haviam muitas e eram de muitas cores diferentes, se estivessemos por exemplo num dos cruzamentos da Avenida dos Combatentes aquilo eram um frenesim de cores que fazia lembrar um arco iris! E eu e o Chico, que vivia com o pai nos Restauradores, em 1967 comprámos uma verde, uma 50S, para andarmos por lá. Era verde mas 1 ou 2 anos depois o Chico quis pintá-la de azul porque ao pai dele - o Sr. Neves - tinham sobrado uns litros de tinta da pintura do 1275GT e o verde da Vespa já estava muito estragado, pelo que em 2 dias pintámos aquilo.
Uma vez à saída do restaurante São Jorge - já vinhamos um bocado tortos - já não nos lembravamos de que cor era a nossa Vespa, então andavamos à procura de uma verde e quando finalmente encontrámos uma subimos lá para cima e tentámos ligar o motor, mas o Chico dizia que a chave não entrava. Era um gajo castiço, mas quando bebia não conseguia fazer nada de jeito... era bom moço, acabou por ficar por lá e da ultima vez que soube dele tinha 3 filhos, mas já foi à muito tempo... uns 20 anos talvez. E então tirei-lhe a chave da mão e fui eu tentar ligar aquilo mas levei um murro em cheio no olho direito! Caímos os dois ao chão! Bom, o Chico se calhar já tinha caído antes, era com cada uma... ele bebia muito... De maneira que caímos os dois no chão... vou a olhar, era o Abranches! A mota era dele! Esse Abranches era mauzinho, andava sempre à zaragata. O pai dele era de Vila Real e tinha um comercio ao pé do Liceu Salvador Correia, também não era muito boa pessoa, por vezes até nos clientes batia... por isso mal vimos o Abranches soubemos logo que iamos levar um arraial de pancada. Quando ele se virou para o Chico já ia a fechar o punho e eu vi logo no que é que aquilo ia dar. Nunca tive medo de andar à pancada e sempre bati mais do que levei [ri-se] e mandei-lhe logo um berro "bates nele desfaço-te já aqui!" para ver se ele era capaz... e foi, nesse dia fomos os dois a pé para casa. Depois é que soube que o Abranches era um bocado surdo."


José Augusto Moreira, 71 anos
Reformado

domingo, julho 25, 2010

O Engenheiro

Luanda era uma cidade fantástica! As pessoas conviviam muito, era espectacular, ir ao Restauração, que era o cine-teatro, e ao Barracuda - ou o Restinga! - comer marisco, bem! Nunca fui lá, mas diziam que era bonito.
Eu andava muito era por Nova Lisboa, porque a fazenda era logo ali ao lado [aponta para a direita] e era só quando o meu pai não precisava de mim, para enviar algum recado ou aviar alguma coisa para as colheitas. Era costume levar o Toyota e olha rapaz que aquilo andava bem! Uma vez, numa curva, surgiu o Engenheiro e ia-o matando! Era vizinho de meu pai, senhor já de idade... tinha ido de Lisboa em 38 ou 39 e dizia que nunca mais havia de voltar, que isto aqui era só gente parva! Vivia bem o Engenheiro, já se sabe... e então andava sempre de cá para lá, com o Toyota, e quando podia ia à caça. Um dos empregados lá de casa, o Mindo, sabia bem caçar e ao Sábado era costume irmos aos leões, logo ali ao lado [aponta para um pão de leite]. Os meus irmãos também vinham, mas não caçavam. Foi coisa que acabou quando comecei a namorar, em 68, com uma das filhas do Engenheiro. Chamava-se Maria. Um dia - nunca mais me esqueço, era terça - estavamos em casa, mão aqui, mão ali e apareceu o Engenheiro, ficou vermelho!! [gargalhadas] Parecia que ia tendo um ataque! Eheh, coisas da idade já se sabe... mas ele não gostou muito. E quando caçávamos não podiamos fazer barulho porque os animais sentiam e fugiam. O Mindo nunca queria que levasse o Ford Escort porque fazia muito barulho. Também andava bem!
Quando o fui buscar a Nova Lisboa quem me lá levou foi o Engenheiro, que gostava muito de autómoveis. Tinha uns 4 e dizia que nunca eram de mais, incluindo o Mini da Maria. Cooper S! Quando experimentei o Escort mandei uma traseirada que o Engenheiro até foi parar aos bancos de trás! Ele era rabugento, não gostava muito de mim. Quando voltámos ele ainda lá ficou mas acho que depois foi para a África do Sul. Nem nunca mais vi a Maria. Ela também caçava, ensinou-lhe o Mindo. Era um grande caçador. Um dia disse-me para disparar para um leão que estava escondido atrás de um arbusto. Era um arbusto alto, estava como daqui para ali [não aponta para lado nenhum] e eu mandei-lhe dois tiros seguidos. Ouviu-se um berro. Era o Engenheiro."


José Augusto Moreira, 71 anos
Reformado

domingo, julho 04, 2010

A memória

Conto-te uma de abrir a boca! Lá estava sempre muito calor, aquilo é terra muito quente... e vermelha, lá a terra é quase da cor desta camisola [aponta para a manta], nunca mais me esqueço... e tão depressa estava a chover como a fazer sol, era assim, lá era assim... e uma vez, em 1964 ou 1965, começaram-se a ouvir uns tiros e fui com o meu pai, que era pessoa honesta e muito querida por lá... tratava todos os empregados com respeito, todos gostavam muito dele, lá da vila era capaz de ser dos melhores patrões! E havia muita miséria, os brancos viviam bem mas os outros... ó ó... eram barracas! Barracas de madeira com tecto de... e chovia, chegava a chover lá dentro... lá chovia muito, era assim. E num dia, eu e o meu pai andavamos lá pela quinta e ouvimos uns tiros e o meu pai disse "Ó Zé, traz o jeep!". Era um Toyota, trouxemo-lo para cá em 1975 julgo eu, numa traineira até Faro, e durou muito tempo. Era um tanque, passava por tudo! Pedras, lama... tudo! E o Tibane veio connosco, ninguém conhecia aquelas terras como o Tibane. Faleceu há uns bons anos esse Tibane, ainda o voltei a ver em Lisboa na Baixa! Vê lá, o Tibane na Baixa! As voltas que o mundo dá. E tinha um Cortina vermelho, assim da cor desta camisola [aponta para as calças], nunca mais me esqueço, carro bom na altura! Vivia bem o Tibane! E então fomos lá, ver do que eram os tiros... e perdemo-nos.


                                   


José Augusto Moreira, 71 anos
Reformado

quinta-feira, junho 24, 2010

As caçadas

Em Malange vivia-se bem.
Quando fui para lá, em 66, as coisas já andavam longe de andar bem mas ainda se vivia com uma qualidade de vida invejável, principalmente se comparada com a que tenho hoje.
Vivia-se bem, pronto. E aquela terra vermelha acolhia-nos com se sempre tivesse sido nossa.

Caçar lá era uma coisa do outro mundo. Aqui na metropole poucos sonhavam o que se passava por lá - alguns nem nunca tinham visto um animal selvagem sequer!
Um dia fui com o meu tio Rui aos leões. Ele adorava caçar leões... pelo menos dizia que sim, porque nunca o vi caçar nenhum. Mas iamos caça-los muitas vezes.
O meu tio Rui era castiço. Certo dia iamos no Land Rover - que era o jipe do meu tio António - e uma leoa saltou lá para dentro. O meu tio Rui puxou-me e saltámos logo, foi uma cena dos diabos! Eu já nem me lembro do que senti, só me lembro de olhar para o meu tio e ele estar a dizer que não deviamos ter deixado as chaves na ignição...

Uma leoa e um jipe com as chaves na ignição, não percebia o problema daquilo... mas a verdade é que o jipe só reapareceu 3 meses depois.




José Augusto Moreira, 71 anos
Reformado